Homens e mulheres encontram novas razões para cuidar da casa

casalingo inglese
“A casa de um homem é seu castelo”, diz o provérbio. Outro reforça: “Boa romaria faz quem em casa fica em paz”. Ainda temos: “Antes de iniciar o trabalho de andar o mundo, dá três voltas na sua casa”. Bons conselhos para ficar em casa (e zelar bem por ela) não faltam, mas a batalha diária pela sobrevivência acaba desviando a atenção de uma boa fonte de bem-estar ali guardada: os afazeres domésticos.

Tarefas prosaicas como lavar a louça, varrer o chão, passar a roupa, arrumar armários e gavetas, cozinhar, decorar e dispor os móveis na casa podem promover uma “faxina” mental e elevar a auto-estima, segundo psicólogos, psicanalistas e aqueles que não têm medo do balde e do esfregão.

Mais do que isso: aprender desde cedo os meandros da manutenção da ordem doméstica ajuda a desenvolver noções de responsabilidade e fortalecer a autoconfiança das crianças. E, com a correria do dia-a-dia, é cada vez mais evidente a necessidade de dividir as tarefas, para que não fique tudo nas costas de quem, historicamente, sempre respondeu pelas tarefas de casa: as mulheres.

Ao mesmo tempo em que manter uma empregada em casa todos os dias está mais difícil (leia quadro à página 8), quem antes se ocupava de cuidar do lar –a mulher– está agora na rua, ocupando seu lugar no competitivo mercado de trabalho. Para quem sobra o serviço, então? Para todos.

Sinal desse novo filão, ou dessa redescoberta do lar e das tarefas domésticas, pode ser encontrado num lançamento editorial recente. Sem cair no tradicional manual de prendas domésticas e longe de ser antifeminista, a jornalista Chris Campos escreveu “Casa da Chris”, com dicas práticas sobre como transformar afazeres do lar numa atividade até divertida, desempenhada por qualquer um, sem papéis relacionados ao sexo ou à idade ou à função na família. Realizar as tarefas da casa entendido como sinônimo de cuidar do espaço íntimo.

Mais curioso é que o livro foi lançado pela editora Record, a mesma da clássica série cuja primeira edição remonta aos anos 70 –”Sebastiana Quebra Galho”, espécie de bíblia da dona-de-casa escrita por Nenzinha Machado Salles (1921-2000), na 36ª edição.

“A idéia é resgatar esse lado lúdico. Por que na hora que a pessoa tem sua casa e pode fazer o quiser lá dentro vai chamar um decorador?”, diz a autora.

“Se pudesse, eu não saía do meu canto para nada”, afirma a estilista Andrea Garcia Martinez, 26, que vai todo sábado de manhã comprar flores. “Chegar em casa e sentir um cheiro gostoso, que te conforta, é um investimento em qualidade de vida”, afirma Andrea, que ainda tem o cuidado de perfumar a cama com água de lavanda. Mas, além dos mimos, na hora de fazer uma arrumação pesada, ela veste luvas e vai à luta: “Nessas horas, o mais importante é escutar uma música legal. Não encaro como trabalho, mas como uma terapia. Me relaxa”, diz.

Trabalho para todos

“Brincar de casinha de verdade”, como diz Chris Campos, não é só um passatempo para “meninas”. No ano passado, foi fundada na província de Lucca, na Itália, a Associação dos Homens Donos-de-Casa (Associazione Degli Uomini Casalinghi), que já conta com mais de 4.000 integrantes. No site da associação (www.uominicasalinghi.it), há vários manifestos pelo direito do homem de ser um dono-de-casa e até notas sobre eletrodomésticos e produtos de limpeza.

“A casa se dá muito bem comigo. Brigamos raramente. Possuo o que se pode chamar de o dom da ‘estocástica’, ou seja, a capacidade de vislumbrar a melhor maneira de guardar as coisas”, afirma o escritor Juva Batella, 33, que escreveu o livro “Confissões de um Pai Doméstico (editora Planeta), em que revela sua experiência como “comandante-em-chefe e líder supremo do território doméstico”. “Gosto bastante de arrumar uma cozinha, por exemplo, lavar a louça e alocar móveis. Gosto mais ainda de arrumar uma biblioteca”, afirma Batella.

A subvalorização do trabalho doméstico, com resultado que se sente, mas quase não se vê, e a determinação dos “responsáveis” têm uma relação estreita com a história das sociedades. Desde o uso da mão-de-obra escrava até a arquitetura influenciaram nesse caminho.

A separação de funções domésticas por cômodos do jeito que estamos habituados hoje ainda seguem modelos habitacionais da burguesia européia do século 19. Segundo o arquiteto Marcelo Tramontano, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da USP de São Carlos, que também é um dos fundadores do grupo Nomads (Núcleo de Estudos sobre Habitação e Modos de Vida), nas últimas décadas, houve uma diminuição das áreas internas das moradias e um paradoxal aumento do tempo passado em casa e do número de atividades desenvolvidas nesse espaço. “Há uma justaposição de ações nos cômodos. É comum crianças receberem seus amigos para brincar no quarto. Há 30 anos, isso não acontecia, as áreas íntimas eram íntimas mesmo”, afirma.

De acordo com o arquiteto, a cozinha, que hoje também é usada como um espaço de convivência, ficava “escondida” dos olhos dos visitantes. “A disposição dos cômodos era feita de forma que as pessoas que moravam na casa não se encontrassem com os empregados”, afirma o arquiteto. “Há alguns modelos de prédios novos que estão retirando algumas funções de dentro dos apartamentos e criando mais espaços coletivos”, afirma.

Sócia de um escritório de arquitetura, a empresária Maria Isabel Pastor Idalgo, 56, mudou-se recentemente para um prédio que oferece esses espaços coletivos, além de vários serviços. “Quis simplificar a minha vida”, conta Maria Isabel, que costuma chamar os amigos para comer em casa, mas, no local do apartamento, usa o refeitório e a cozinha coletivos, chamados “espaço gourmet”.

Todos os dias, um empregado contratado pelo condomínio deixa seu apartamento limpo. “Odeio arrumar a cama. Minha mãe sempre gostou de arrumar para gente, ela se sentia mais mãe. Eu me acostumei que alguém fizesse isso por mim”, diz ela, que também não se encarregou da sua decoração –contratou um profissional para montar o apartamento.

Educação começa em casa

Segundo a psicanalista Alice Bittencourt, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, faz toda a diferença incluir ou não as crianças nos cuidados com o espaço que a família divide. Elas podem começar por aprender a lavar suas roupas íntimas, fazer algumas coisas na cozinha, arrumar a cama e cuidar do próprio quarto desde cedo. “A partir dessas atividades é que elas se tornam auto-suficientes, vão ficar menos inseguras”, afirma a psicanalista, que acredita que realizar algumas tarefas de casa acabam até influenciando o rendimento escolar.

“As mães estragam muito os filhos, principalmente os filhos homens. É uma tentativa de poupá-los de tarefas que uma hora ou outra terão de enfrentar”, diz a professora de geografia Maria Lidia Bueno Fernandes, 42. E ela pode falar.

Com dez anos de idade, seu filho Liam a acompanha ao supermercado, ajuda a retirar as compras do carro e organizá-las nos armários, dá uma mão no preparo do jantar, cortando legumes ou ralando o queijo, põe e tira os pratos da mesa e ainda divide a pia na hora de lavar a louça. Para a mãe, que viveu nove anos na Alemanha, esse tipo de atitude não causa espanto. “Lá não tem essa da mulher fazer tudo em casa. As tarefas são divididas igualmente, e as crianças começam a participar logo cedo”, afirma Maria, que conheceu o pai de Liam, o designer gráfico William Russ, 56, em Munique.

Há certas horas que Liam preferiria jogar videogame e assistir à televisão a ter de colocar a mesa. “Eu explico para ele que nem sempre podemos fazer aquilo que queremos. A responsabilidade é de todos.”


Além dos deveres

Arrumar e limpar a casa é tarefa inescapável: alguém terá sempre de fazê-la. Mas a faxina doméstica, além de ensinar sobre responsabilidade e autonomia, tem ligações com a faxina interior, segundo especialistas. Para a psicanalista Alice Bittencourt, “uma casa muito desordenada reflete uma desorganização mental”. Segundo ela, a falta de cuidado com a casa pode revelar um desleixo com o rumo da própria vida. “Muitas vezes, a pessoa não tem ânimo de fazer as coisas em casa porque mora sozinha. Ela pensa assim: não vou cozinhar só para mim, não vou por colcha na minha cama. A motivação sempre é o outro. É preciso aprender a fazer as coisas para a gente. Só podemos amar o outro se nos amarmos primeiro”, diz.

O caminho inverso também é válido. Quando uma pessoa bastante desorganizada mentalmente, desligada, começa a se organizar internamente, ela também leva essa organização para fora de si, para os compromissos, para a casa.

Editor e consultor de um boletim eletrônico chamado “Simplify your Life” (www.simplify.de) –com sugestões para deixar a vida menos complicada–, o alemão Werner Tiki Küestenmacher acabou reunindo todas as suas dicas em um homônimo (“Simplifique sua Vida”, lançado no Brasil pela editora Fundamento). “Nossa casa é um símbolo do nosso interior”, afirma o consultor. Para ele, por exemplo, acumular de forma exagerada é como andar para trás: “Coisas velhas mantêm você no passado”, diz.

A psicanalista Alice Bittencourt faz coro: “É muito importante ter coragem de jogar coisas fora. É como uma limpeza na cabeça, mas acontece nas gavetas. Não se pode ter tanto apego ao que não serve mais”.

“Mi casa, su casa”

Algumas pessoas, porém, têm menos habilidades para organização do que outras. Para elas, cuidar da casa e as tarefas que isso envolve é um martírio. Mas tudo bem. A receita deve ser adequada a cada um. É o que defende Armando Colognese Junior, supervisor do curso de formação em psicanálise do Sedes Sapientiae, de São Paulo. “Diante de tantos problemas que já temos fora de casa, a arrumação não pode se tornar mais um fator de ansiedade e estresse. O que é um prazer para uma pode ser detestável para outra. Então a pessoa não pode se forçar, tem de aceitar o seu limite.”

Para o pesquisador Hartmut Günther, responsável pelo Laboratório de Psicologia Ambiental da Universidade de Brasília, o mais importante é a pessoa se sentir confortável em casa. “O que significa arrumado para um pode não ser o mesmo para outro. É no lar que temos nossa privacidade, onde não precisamos usar máscaras”, afirma.

Se a pessoa sente que não tem influência como cidadão, não tem voz ativa na sociedade, não vai fazer nada para ajudar a criar um ambiente público melhor. E isso se repete no espaço doméstico, diz o psicólogo. Se ela tiver o seu espaço respeitado dentro de casa, há um engajamento maior na sua manutenção.

Uma alternativa para os desorganizados por excelência pode ser aprender com alguém especializado no assunto. Dona-de-casa por “vocação”, como faz questão de frisar, a mineira Célia Nunes, 47, abriu neste ano o curso “Simplesmente no Lugar” com a irmã Vânia Laporte, 46, depois de trabalharem durante anos como arrumadeiras profissionais. O curso é dividido em dois módulos: “Organização de Armário de Quarto” e “Banheiro, Cozinha, Dispensa e Lavanderia”. “O mais importante é trabalhar em equipe para que todos possam ter o seu momento de lazer e descanso”, afirma Vânia.

“Eu gosto muito de ficar em casa. Me sinto saudável numa casa bem arrumadinha e limpa.” Tal frase soaria como um chavão se não estivesse na boca do pedreiro e catador de papel José Carlos Vieira Rocha, 57, que vive num barraco no aterro sanitário desativado de Carapicuíba, na Grande São Paulo.

O barraco de Zeca, como é conhecido, destaca-se dos demais da região pelo desvelo. Em cada detalhe da habitação se vê o esmero do pedreiro, que construiu, mobiliou e decorou todo o seu barraco com material desprezado por outros. Há telhas feitas com garrafa PET, papel de parede de embalagem de biscoitos, cortinas arranjadas com restos de papel laminado, um “jardim de inverno” com flores de plástico e até um sistema de som que permite ouvir o rádio em todos os “cômodos” da casa.

Um esquema de segurança feito com pedaços de espelhos ainda permite que Zeca veja a rua deitado em seu colchão. “A casa de um homem é seu último refúgio”, diz sorrindo.

MARCOS DÁVILA
da Folha de S.Paulo
30/09/2004 -

 

 

 

 

 

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